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Vitória Diniz. Tecnologia do Blogger.

O infinito e a vida

Segundo o dicionário Aurélio, morte significa a "interrupção definitiva da vida de um organismo".

Todos os dias vemos nos noticiários de forma veemente a quantidade de vidas perdidas pelo corona vírus, números vazios e muitas vezes distantes. Mas, concretamente o que ela significa? O que seria morrer? como a morte é representada?

Na literatura e narrativas audiovisuais é representada por uma figura cadavérica com roupas pretas e uma foice. Cada detalhe da personificação demostra nas suas entrelinhas como nós, seres mortais, encaramos essa pequena palavra: com medo. Medo do vazio, das incertezas, de abandonar tudo e todos que conhecemos.

Contudo, para as famílias das milhares de pessoas que estão partindo diariamente, a morte é a ausência de um sorriso, um abraço perdido, uma cadeira vazia e o cessar da alegria. É a certeza de que jamais poderá ver ou tocar a pessoa, ouvir suas piadas ou as palavras chulas que tanto repetia, degustar um "cadim" do seu bolo, ter o seu consolo. Agora é um olhar distante de uma terra grande que já foi seu lar. 

  




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No início do ano falei sobre uma inquietação que é mais comum do que eu imaginava: o medo de ter escolhido o curso errado. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), cerca de 56% dos estudantes abandonam ou trocam de graduação, um valor bem alto.

Há alguns meses escrevi um post aqui no blog sobre a possibilidade de ter escolhido a graduação errada. Desbravando a fundo essa questão, com ajuda da psicoterapia e da minha infinita curiosidade por conhecimento, percebi que escolher um único caminho não seria a opção que me deixaria mais tranquila e "feliz".

O fato é que eu gosto e tenho habilidades em muitas áreas diferentes e quero trabalhar com a maior parte possível delas. Ao mesmo tempo que amo a matemática e tenho interesse em programação, sou apaixonada pela escrita (seja ficcional, jornalística, de artigos ou divulgação científica) e toda a cadeia de produção que a envolve, além do meu desejo de atuar na área ambiental, do prazer em criar desenhos que expressem meus sentimentos e o gosto pelo conhecimento tanto filosófico quanto psíquico. E está tudo bem ser assim. 

Diante disso, surge a necessidade de falarmos sobre a multipotencialidade, a qual basicamente é uma característica de pessoas com muitas habilidades e interesse em diferentes áreas. Ou seja, um curso nunca irá satisfazer esse indivíduo e sempre existirá a sensação de que poderia estar desenvolvendo outra habilidade (além de estar traindo as demais, rs). Foi exatamente o que ocorreu comigo, não adiantava trocar de graduação, a angústia continuaria ali presente, então notei: se estou em um dos meus campos de interesse e gosto dele, o mais sensato seria continuar minha formação mas trabalhar e ficar continuamente em contato com todas as outras, assim eu me sentiria melhor. Foi exatamente o que aconteceu.

A seguir, para embasar mais a discussão, apresento um vídeo do TED sobre multipotencialidade (aqui uma versão com legenda em português), que pode lhe fazer refletir ou ter maior consciência sobre o tópico:


Muitas vezes esse é o caso, contudo, isso não anula a desistência por falta de identificação com a carreira escolhida ou as matérias que a compõem, algo totalmente válido. Não é o fim do mundo trocar de graduação, mas tal atitude não pode ser impulsiva, pois as chances de se frustrar novamente serão altas.

Existe outro ponto cuja reflexão é pertinente: a insatisfação com o que está estudando é legítima ou vem de algo bem maior (como um momento difícil na vida)? Um exemplo bem simples é a minha situação, pois conversando com meu psicólogo notei que esse descontentamento não dizia respeito somente aos meus estudos, mas sim a vida no geral. Naquele momento eu estava enfrentando um episódio depressivo como pode ser concluído pela leitura de "Qual é realmente o problema?", precisava que algo desesperadamente me salvasse, daí veio o pensamento errôneo, hoje afirmo com total certeza, de não ter escolhido o melhor caminho. A graduação de Gestão Ambiental é uma das melhores coisas na minha vida. 

Mais do que nunca, entendo como essa dúvida é dolorosa, afinal é uma vida bem sucedida (fazendo algo por "amor") que está em jogo, aqui o erro não é permitido pois irá definir todo o nosso futuro, imaginamos. Todavia, isso está totalmente incorreto. Repito, por fim, a frase do filme "Mr. Nobody": "todo caminho é o caminho certo, tudo poderia ter sido outra coisa e teria o mesmo tanto de significado". 

Até as árvores evidenciam os caminhos. Qual você escolheria?
Até as árvores evidenciam os caminhos... Qual você escolheria?


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Entre o acervo de filmes disponíveis na 9º mostra da Ecofalante, um em especial chamou a minha atenção: “O custo do vício digital”. Geralmente o Vale do Silício é tratado pela mídia como um exemplo de desenvolvimento tecnológico, contudo o documentário mostrou o lado obscuro. Os componentes da fabricação de computadores no final do século XX causou uma série de contaminações existentes até hoje: em um bairro residencial próximo, todos os moradores tiveram câncer devido a contaminação do solo e do lençol freático. Nos trabalhadores dessas empresas as consequências não foram diferentes, uma moça que engravidou durante o período do trabalho, cuja função consistia em manipular substâncias radioativas sem saber (porque a empresa não explicava a procedência do material) relata os problemas de desenvolvimento que seu filho teve (nasceu com uma série de deficiências, inclusive mental). A ironia é que com a expansão desses casos e a dinâmica do capitalismo, as grandes empresas de tecnologia, como a apple, espalharam em países menos desenvolvidos a matriz de produção. Isso me fez lembrar do documentário “Ken Saro-Wiwa, presente!”, pois em ambos degradar, poluir e explorar o território do outro (por ser menos abastado) é legítimo e aceitável, enquanto que o deles deve ser poupado e protegido por uma legislação mais rígida.

Além disso, a China é mostrada como uma das maiores indústrias produtoras de eletrônicos. Os benefícios disso, todavia, se concentram apenas nos ganhos financeiros dos patrões e governantes, enquanto que os empregados são obrigados a aguentar péssimas condições de trabalho com jornadas exaustivas, recebendo um pequeno salário. Tais condições são refletidas nas altas taxas de suicídio, consumado dentro até da própria empresa. Por fim, há o total despejo de poluentes químicos nos rios e o descarte incorreto de materiais radioativos que colocam em risco a vida de milhares de famílias pobres de catadores, as quais vivem em meio a todos esses resíduos. 

O que mais me choca nisso tudo é a total alienação de muitos consumidores que sem o menor interesse na perversidade ambiental e social da cadeia produtiva de equipamentos tecnológicos, consomem exageradamente e trocam seus aparelhos em curtos períodos de tempo, sem nem tentar prolongar a vida útil deles. Seriam essas pessoas tão culpadas quanto os empresários que permitem a poluição? E você? Não acha que está na hora de repensar o seu consumo?

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No início do ano encontrei o Estoicismo, uma filosofia que me fascinou muito e despertou o desejo de adotá-la para minha vida. Foi nesse momento que me dei conta de como o conhecimento filosófico poderia ajudar a lidar melhor com várias questões do meu dia a dia e, principalmente, com os transtornos psíquicos que sofro. Então, gostaria de compartilhar alguns ensinamentos da leitura do livro "Sobre a brevidade da vida", escrito pelo filósofo Sêneca na forma de carta-ensaio destinado para seu amigo Paulino.

Tal pensador, nessa obra, reflete e questiona como é utilizado o bem mais precioso que temos: o tempo. Segundo ele, cometemos o erro de desperdiçar horas com atividades banais, seja pelo excesso de trabalho que nos torna escravos do ofício e limita o tempo livre, seja por distrações. Enquanto poderíamos nos dedicar ao nosso próprio melhoramento pessoal.
   
"A vida, se você souber usá-la, é longa".
"Você não tem vergonha de reservar para si mesmo apenas o remanescente da vida, e separar para a sabedoria apenas o tempo que não pode ser dedicado a qualquer negócio? Viver apenas quando devemos deixar de viver!".
"O maior obstáculo para a vida é a expectativa, que depende do amanhã e do desperdício do hoje".
"Encontramos a morte quando ainda estamos nos preparando para viver".
"Não é que tenhamos um curto espaço de tempo, mas que desperdiçamos muito dele. A vida é longa o suficiente, e foi dada em medida suficientemente generosa para permitir a realização das maiores coisas, se a totalidade dela estiver bem investida".
"Não há nada que o homem ocupado esteja menos ocupado do que em viver. [...] Todo mundo apressa sua vida e sofre de um anseio pelo futuro e um cansaço do presente".
"O adiamento é o maior desperdício da vida".
"A vida é dividida em três períodos — aquilo que foi, aquilo que é, aquilo que será. Destes o tempo presente é curto, o futuro é duvidoso, o passado é certo". 

Um dos melhores investimentos que alguém pode fazer, de acordo com Sêneca, é no conhecimento. A filosofia pode tornar o ser imortal, visto que os ensinamentos, reflexões e pensamentos somam a existência. Além disso, os filósofos, mesmo os fisicamente mortos, estão disponíveis para consulta independente do período.  

"Dentre todos os homens, somente são ociosos os que estão disponíveis para a sabedoria; eles são os únicos a viver, pois, não apenas administram bem sua vida, mas acrescentam-lhe toda a eternidade".
"Nenhum destes (filósofos) lhe forçará a morrer, mas todos lhe ensinarão como morrer; nenhum destes irá desgastar seus anos, mas cada um adicionará seus próprios anos ao seu. [...] Nós podemos ser os filhos de quem quisermos. Existem famílias do mais nobre intelecto; escolha aquela em que você deseja ser adotado".

Ademais, disserta sobre uma questão comum a muitas pessoas: a dedicação a algo que não os representa, a qual acaba sendo uma condenação. E isso, na minha opinião, envolve muitas coisas tais como a persistência (geralmente) por comodismo ou medo em um curso ou profissão que não gosta, nem faz sentido para o indivíduo. Atrevo-me ainda a ir além, aplica-se também a pessoas que insistem em relacionamentos (amorosos, com amigos, familiares) que só consomem suas vidas e energias, no fim deixarão um sentimento de frustração por ter vivido em função do outro ignorando seus sonhos e ideais.  

"A condição de todos os ocupados é miserável, mas a mais desgraçada é a condição daqueles que trabalham com ocupações que nem sequer são suas, que regulam o seu sono pelo de outro, a sua caminhada pelo ritmo do outro, que estão sob ordens no caso das coisas mais livres do mundo — amar e odiar. Se estes desejam  saber quão breve é a sua vida, que considerem quão insignificante é a parte que lhes cabe".

Nenhum instante da vida voltará, cabe a nós escolher (e nisto vem a responsabilidade da opção adotada) como investir nosso tempo. Nem sempre conseguiremos seguir fielmente as ideias de Sêneca, afinal somos seres humanos e o erro é comum, mas na maior parte do tempo podemos fazer mais pela vida e não somente deixar que ela escorra sobre nossos dedos.

"No entanto, ninguém vai trazer de volta os anos, ninguém lhe dará mais uma vez a si mesmo. A vida seguirá o caminho iniciado, e não reverterá nem verificará seu curso".

Se ficou curioso para conhecer mais sobre os ensinamentos do estoicismo, eu recomendo a leitura do artigo escrito na plataforma Medium, por Sabrina de Andrade "O que é estoicismo?" e também "Estoicismo diário" da mesma autora.

Você pode adquirir o livro físico na Amazon pelo link: https://amzn.to/2zOAc5n  ou o e-book: https://amzn.to/2zGL2ul (comprando pelos links você ajuda o blog ❤️).
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Relacionamentos superficiais, pressão (seja interna ou externa) para ser bem sucedido, cobrança da faculdade, preocupações financeiras, insegurança devido as redes sociais, desespero diante do desemprego ou (para quem trabalha) falta de tempo, rotina agitada, distanciamento da família e amigos, baixa autoestima provocada pelas desilusões amorosas, imposição para ter um relacionamento e constituir família... As exigências da vida adulta não param por aí. Mas essas resumem bem as indagações que tiram o sono de (quase) todo jovem que chega a tal turbulenta fase da vida. 

Quando criança, fantasiamos com a fase em que teremos independência suficiente para fazermos nossas próprias escolhas. Contudo, como quase todo delírio infantil nos enganamos a respeito do que é ter mais de 18 anos: uma grande dor de cabeça. Na verdade, é um período totalmente marcado por incertezas. Se você também chegou a essa etapa, sinta-se abraçado.

Para os teimosos devo avisar que não tem nada de glamouroso em trabalhar, não sobrará dinheiro nem para as bobagens gastronômicas. E tempo é o menor recurso do jovem-adulto, principalmente se precisa lidar com o grande volume de atividades do ensino superior.

Ademais, é geralmente nesse período que ocorrem as primeiras ou mais sérias relações amorosas. Com isso, iniciam-se as frustrações, os livros e filmes de romance nos enganam! Na vida real predominam joguinhos, indiferenças e conflitos. Nesse sentido, faço alusão a música "Trem bala" da cantora Ana Vilela: "é que a gente quer crescer e quando cresce quer voltar ao início, porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido".

Outra ilusão é acreditar que já seremos seres maduros e bem-resolvidos, ao final de um dia cheio muitas vezes desejamos o colinho materno acompanhado por uma boa dose de glicose. Sem falar que a chegada abrupta de todas essas responsabilidades pode agravar a saúde mental e levar a dosses excessivas de estresse, cansaço ou coisas piores como distúrbios psiquiátricos e até o suicídio. Não podíamos estar mais enganados (durante a infância) sobre como é a vida adulta.
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Passada a empolgação inicial de ter ingressado na melhor universidade pública da América Latina, a USP, flagrei-me constantemente pensando "é isso mesmo que quero?". Aos poucos fui descobrindo que a atuação literalmente faz jus ao termo gestão (primeira palavra que compõe o nome do curso), o qual tem enfoque totalmente administrativo e burocrático acerca dos recursos naturais. Em outras palavras, guia planejamentos, avaliações, intervenções e manejos de áreas ambientais já degradadas, geralmente no conforto de um escritório. Constatei tudo isso a partir de palestras e conversas com egressos atuantes na área (realizadas no ano passado).

 Quando escolhi o curso tinha consciência desse lado administrativo, mas sinceramente eu estava um pouco perdida e desiludida, queria que esse chamado ambiental salvasse a minha vida e fornecesse uma razão para viver. Um pouco ingênuo, eu sei, mas como o gato do filme da Alice diz "quando você não sabe o que quer, qualquer caminho serve" e ainda tinha a possibilidade de estudar na minha tão sonhada USP...

Sinto falta da matemática e dói saber que talvez não tenha optado seguir nessa área por insegurança, medo de não ser boa o suficiente. Isso porque mesmo apesar das minhas excelentes notas escolares, paixão e curiosidade pela disciplina, nunca fui premiada na OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas), o que para minha mente ansiosa e depressiva era motivo suficiente para me tornar incapaz de ter êxito. O meu perfeccionismo e a alienação da percepção de que por sermos humanos o erro é comum e aceitável, impediu-me de seguir os estudos nesse campo.

Entrei na graduação carregando a frustração de não ter tido coragem para escolher o que realmente queria, tentei o tempo todo me convencer de estar seguindo o caminho mais correto, afinal estava lutando por uma causa nobre e do meu interesse: o meio ambiente, a qual me curaria da depressão proporcionando o sentimento de utilidade e o desejo de continuar viva. Não poderia estar mais errada! Pode não ter sido apenas o fator universidade, mas também a somatização da minha adaptação a São Paulo (cidade que mantenho uma relação de amor e ódio), responsáveis pela piora do meu quadro clínico, porém, sem dúvidas a insatisfação pessoal com minhas decisões teve um grande peso.

Deveria ter notado o problema quando foi divulgado o resultado do ENEM: não fiquei feliz, senti-me indiferente. O que é estranho, mesmo tendo sofrido uma crise depressiva após a realização da prova por antecipação catastrófica do meu resultado. Todavia, o que eu poderia fazer nesse momento? A seleção já tinha ocorrido e me esforcei tanto para entrar na USP, minha nota já havia sido usada e foi tão legal compartilhar meu "sucesso", receber os parabéns no facebook.

E agora? Você pode dizer: é simples, só mudar para algum curso da área matemática! Talvez até possa ser, contudo, não é assim que vejo. Ainda carrego as marcas do meu fracasso na OBMEP, tenho muita insegurança. Principalmente porque a matemática do ensino superior é diferente daquela a qual estamos acostumados, vem o medo de não gostar do que irei encontrar, de errar novamente a escolha. Nesse momento penso que se eu não tentar nunca irei saber. Entretanto existe outro fator também: dependo dos auxílios oferecidos pela universidade, e o financeiro só é ofertado para alunos do meu campus, então se eu trocar de curso vou perdê-lo.

 Enquanto não decido sigo onde estou. E essa posição não é de todo ruim, sabe? Tenho um certo apego pelo que alcancei, contraditoriamente é de certa forma confortável. Eu gosto das viagens de campo, de fazer algo pelo meio ambiente, das experiências vividas e o autoconhecimento adquirido no caminho, das amizades que fiz, da independência que a universidade me proporciona, uma grande parte das matérias são interessantes e o ambiente já é familiar. Seriam esses fatores motivos suficientes para permanecer no curso? Eu não sei. Enquanto não decido nada o tempo vai passando e tudo fica mais e mais difícil, não escolher também é uma escolha. 

Além de tudo isso, existe a pressão para fazer a escolha "certa" que me levará a uma vida bem sucedida e a justificativa é a da vida ser única, só há uma chance. Nesse momento me lembro do filme "Mr. Nobody". Uma de suas citações contradizem totalmente essa ideia, segundo a qual "todo caminho é o caminho certo, tudo poderia ter sido outra coisa e teria o mesmo tanto de significado".

É, portanto, um momento difícil, uma questão inquietante. Irei aproveitar a quarentena, já que vivemos uma pandemia de COVID-19 e estou na Bahia devido ao cancelamento das aulas presenciais (o que também não ajuda muito, pois me deixa mais ansiosa e ainda tenho que me adaptar ao modelo improvisado de aula EAD da USP), para pensar um pouco mais sobre isso. Talvez um dia chegue a alguma conclusão.

Retratação: https://oinfinitoeavida.blogspot.com/2020/11/e-se-nao-existir-um-curso-certo.html
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Desde que comecei a fazer psicoterapia (há dois anos) sempre me pergunto o porquê de não copiarmos o modelo de contato psicólogo-paciente (que consiste em encontros semanais de alguns minutos) nos outros relacionamentos. A sensação que eu tinha era de que se nos empenhássemos a seguir esse estilo haveria menos superficialidade nas principais relações humanas.

A consulta psicológica é um momento em que (geralmente) dois seres se encontram com objetivo de reduzir a dor do outro por meio de uma escuta empática, sem julgamento com comentários que guiam a uma reflexão maior. Sei que na vida real esses profissionais contam com um treinamento longo que os guiam na abordagem em consultório. Contudo, se a ideia geral de reunião para acolhimento das angústias e anseios fossem adotadas, seria possível entender mais as preocupações de alguém. Nunca tive um momento desse tipo, de sentar com algum familiar ou amigo e conversar sobre como me sinto, e pelo que percebo é assim com várias outras pessoas, não só comigo. É algo tão simples, mas que faz uma diferença enorme e que poderia fazer também.

É justamente sobre a importância dessa habilidade de escutar que Rubem Alves disserta no texto "escutatória":  
"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil… Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer… Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…".

Analiso, por fim, se nos relacionamos de maneira errada, ninguém ensina como devemos prosseguir. Simplesmente seguimos interagindo aleatoriamente, empurrando com a barriga (de qualquer jeito conforme a correria do dia), é como tocar alguém de raspão quando se poderia abraçar. Mantemos o contato superficial por uma convenção, assim parece que aturamos a companhia por ela simplesmente existir. O fato é que muitas vezes sabemos mais as preferências musicais de um amigo virtual do que a banda ou cor preferida de nosso irmão, falta um empenho quando se trata de conhecermos um indivíduo que aparentemente já conhecemos por fazer parte de nossas vidas, mas que no fim, não sabemos muitas coisas sobre, uma grande e infeliz ironia. 

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Fonte: arquivo pessoal, 2019


Estaria mentindo se falasse que consegui  lidar muito bem com tudo. O ano de 2019 foi muito desafiante para mim, questionei-me muito sobre a vida e a morte também. Fiquei confusa com coisas simples, óbvias, outras nem tanto e ocorreu principalmente a desconstrução de quem eu era (ou achava), da minha imagem, onde todas as referências perderam o valor por não fazerem mais sentido. Não faço a menor ideia de quem sou, mas pelo menos tenho certeza que meus erros não me definem e qualquer coisa pode ser construída ou melhorada.

Não é confortável a pressão de estar em um ambiente de elite cercada por alunos de escolas particulares, melhores ETECs, cursinhos mais caros e poliglotas, a USP indiretamente suga sua confiança. Iniciei os estudos totalmente insegura, essencialmente após uma aula trote (muitos desconfiavam) intimidar ao ponto de questionar meus conhecimentos e levar a considerar-me burra. Alias, essa foi a maior sensação que tive durante o ano, que eu não sou boa o suficiente para a universidade.

A EACH tem a proposta de ser mais inclusiva por estar localizado na Zona Leste e oferecer  para indivíduos em vulnerabilidade socioeconômica, além dos auxílios moradia, alimentação e livro (esse último é extremamente difícil de conseguir, não conheço ninguém que tem), o manutenção. Apesar disso, observei que a USP ainda não está preparada para garantir a permanência de alunos que vêm de escolas públicas, das periferias. Fui contemplada com três dos quatro auxílios oferecidos e somente por isso consegui me manter (tive problemas principalmente no início pela demora da liberação do passe livre), mas presenciei uma amiga quase desistir do curso por precisar e não ser contemplada integralmente.

A adaptação ao transporte público de São Paulo foi gradativa. No começo pedia informação para todo mundo. Já cheguei a pegar o ônibus errado, passar do ponto, errar a estação e direção do metrô, esquecer o bilhete único, ficar presa no trem por não conseguir sair. Aos poucos fui aprendendo e desenvolvendo técnicas para não me perder, hoje sempre ando com um caderninho de endereços e números de ônibus, além do mapa do metrô e cptm (sugestão de minhas amigas da faculdade) distribuídos gratuitamente. Também tenho consciência da regra de sempre andar a direita nas escadas (principalmente rolantes) e que os vagões das extremidades geralmente estão mais vazios.

A mesma instituição que por muitas vezes tirou o meu sono, também proporcionou momentos incríveis. Os instantes de conexão mais pura comigo, em que consegui abraçar minhas dores e entender os meus sentimentos ocorreram na viagem a aldeia Rio Silveiras, onde conheci o mar e descobri meu amor pelo ecoturismo e pelos povos indígenas. O mais maravilhoso foi sentir "ainda bem que estou viva". No segundo semestre a visita de campo ao Parque das Neblinas (Bertioga-SP) logo após a alta do hospital psiquiátrico proporcionou esperança, um recomeço observando pelo mirante a vista maravilhosa da praia de Bertioga.

Mais difícil que viver em outro local é ser obrigada a lidar com a ausência de pessoas importantes. Senti muita falta da minha família (meus pais, o irmão e as cachorrinhas), em vários momentos precisava apenas de um abraço deles. Isso por um lado, proporcionou o desejo de estar mais perto e aceitar mais o contato (tenho problemas com o contato físico) e minha ânsia por abraços quebra-ossos. Em contrapartida, levou-me a constatação: quando estamos perto esquecemos das coisas essenciais.

Ainda não me acostumei a dinâmica da cidade, o tempo perdido no deslocamento (no mínimo três horas por dia) e a grande quantidade de seres humanos (sempre sinto falta de ar em estações lotadas), contudo, encontrei locais e pessoas que podem me auxiliar nessa caminhada. Desse modo, mesmo sendo só mais uma na cidade consigo ir vivendo aos pouquinhos, algumas horas me arrastando, outras de carona com ar condicionado e umas poucas na chuva chorando e sorrindo.



A escrita transforma.




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SOBRE MIM

SOBRE MIM
Sou uma pessoa tentando ser útil para a sociedade de modo a transformá-la. Vitória, 23 anos, bacharel em Gestão Ambiental pela USP, vegetariana, gym rat, calistênica iniciante e grande apreciadora da matemática, ciência, cérebro, animais, meio ambiente, livros e psicologia. Definitivamente diferente.

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