Adaptação e universidade, como foi o ano?

by - dezembro 27, 2019

Fonte: arquivo pessoal, 2019


Estaria mentindo se falasse que consegui  lidar muito bem com tudo. O ano de 2019 foi muito desafiante para mim, questionei-me muito sobre a vida e a morte também. Fiquei confusa com coisas simples, óbvias, outras nem tanto e ocorreu principalmente a desconstrução de quem eu era (ou achava), da minha imagem, onde todas as referências perderam o valor por não fazerem mais sentido. Não faço a menor ideia de quem sou, mas pelo menos tenho certeza que meus erros não me definem e qualquer coisa pode ser construída ou melhorada.

Não é confortável a pressão de estar em um ambiente de elite cercada por alunos de escolas particulares, melhores ETECs, cursinhos mais caros e poliglotas, a USP indiretamente suga sua confiança. Iniciei os estudos totalmente insegura, essencialmente após uma aula trote (muitos desconfiavam) intimidar ao ponto de questionar meus conhecimentos e levar a considerar-me burra. Alias, essa foi a maior sensação que tive durante o ano, que eu não sou boa o suficiente para a universidade.

A EACH tem a proposta de ser mais inclusiva por estar localizado na Zona Leste e oferecer  para indivíduos em vulnerabilidade socioeconômica, além dos auxílios moradia, alimentação e livro (esse último é extremamente difícil de conseguir, não conheço ninguém que tem), o manutenção. Apesar disso, observei que a USP ainda não está preparada para garantir a permanência de alunos que vêm de escolas públicas, das periferias. Fui contemplada com três dos quatro auxílios oferecidos e somente por isso consegui me manter (tive problemas principalmente no início pela demora da liberação do passe livre), mas presenciei uma amiga quase desistir do curso por precisar e não ser contemplada integralmente.

A adaptação ao transporte público de São Paulo foi gradativa. No começo pedia informação para todo mundo. Já cheguei a pegar o ônibus errado, passar do ponto, errar a estação e direção do metrô, esquecer o bilhete único, ficar presa no trem por não conseguir sair. Aos poucos fui aprendendo e desenvolvendo técnicas para não me perder, hoje sempre ando com um caderninho de endereços e números de ônibus, além do mapa do metrô e cptm (sugestão de minhas amigas da faculdade) distribuídos gratuitamente. Também tenho consciência da regra de sempre andar a direita nas escadas (principalmente rolantes) e que os vagões das extremidades geralmente estão mais vazios.

A mesma instituição que por muitas vezes tirou o meu sono, também proporcionou momentos incríveis. Os instantes de conexão mais pura comigo, em que consegui abraçar minhas dores e entender os meus sentimentos ocorreram na viagem a aldeia Rio Silveiras, onde conheci o mar e descobri meu amor pelo ecoturismo e pelos povos indígenas. O mais maravilhoso foi sentir "ainda bem que estou viva". No segundo semestre a visita de campo ao Parque das Neblinas (Bertioga-SP) logo após a alta do hospital psiquiátrico proporcionou esperança, um recomeço observando pelo mirante a vista maravilhosa da praia de Bertioga.

Mais difícil que viver em outro local é ser obrigada a lidar com a ausência de pessoas importantes. Senti muita falta da minha família (meus pais, o irmão e as cachorrinhas), em vários momentos precisava apenas de um abraço deles. Isso por um lado, proporcionou o desejo de estar mais perto e aceitar mais o contato (tenho problemas com o contato físico) e minha ânsia por abraços quebra-ossos. Em contrapartida, levou-me a constatação: quando estamos perto esquecemos das coisas essenciais.

Ainda não me acostumei a dinâmica da cidade, o tempo perdido no deslocamento (no mínimo três horas por dia) e a grande quantidade de seres humanos (sempre sinto falta de ar em estações lotadas), contudo, encontrei locais e pessoas que podem me auxiliar nessa caminhada. Desse modo, mesmo sendo só mais uma na cidade consigo ir vivendo aos pouquinhos, algumas horas me arrastando, outras de carona com ar condicionado e umas poucas na chuva chorando e sorrindo.



A escrita transforma.




You May Also Like

0 comentários